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Adrián Anacleto, CEO e fundador da Epidata. 

A política, a economia e, em geral, as ciências com impacto social sempre foram áreas que historicamente interpelaram o indivíduo e a comunidade; de forma clara, esse tipo de disciplina esteve (e está) presente em nosso dia a dia e em nossas atividades cotidianas. Muito diferente tem sido a percepção da matemática, da física ou das chamadas ciências exatas, muito mais “distantes” e intangíveis e, portanto, afastadas da realidade. No entanto, em uma época marcada pela Quarta Revolução Industrial, a questão do software passou a ser crucial e a interpelar diretamente a sociedade; o futuro do mundo é digital. Em seu ensaio “No Silver Bullet”, Brooks (1975) identifica os quatro problemas essenciais do software: complexidade, conformidade, maleabilidade e invisibilidade. Seu argumento é que o software é visto como algo capaz de se adaptar a qualquer circunstância ou ambiente; como algo fácil de executar, onde adicionar um “botãozinho” em uma aplicação é muito mais fácil do que construir um novo andar em um edifício (quem pediria isso último?). Essa percepção produz confusões e afirmações ousadas até nas mentes mais afiadas. Mas é importante ter em conta, parafraseando Brooks, que o software não está incrustado no espaço.

O certo é que desenvolver software não é para qualquer um e, ao contrário do que alguns costumam comentar, nem todas as empresas são de software.

Será que todas as empresas podem e devem ser empresas de software? Para o ex-CEO da General Electric, Jeff Immelt, a resposta é afirmativa (Twentyman, 2015). Não só isso, o executivo também afirmou que todos os millennials, independentemente de sua área de especialidade, devem aprender a programar. Esse tipo de afirmação, atraente em entrevistas e redes sociais, gera a impressão de que ser uma empresa de software é algo fácil e adequado para todos. Nada mais distante da realidade. Conseguem imaginar um craque de recursos humanos ou um líder capaz de motivar uma equipe nas circunstâncias mais adversas, reduzido apenas à escrita de uma linha de código? Se Flannery O’Connor fosse millennial, será que a colocaríamos para desenvolver software? Nesse caso, o que aconteceria com sua contribuição para a literatura?

Para ser uma empresa de software é preciso nascer empresa de software. O digital, a inovação e a tecnologia são a nossa essência, o ar que respiramos todos os dias. Os programadores são o centro do nosso negócio, e gerar soluções disruptivas é o motor que nos move para a frente. Esses processos não são simples nem rápidos: são de longo prazo e exigem dedicação em tempo integral. É impossível fazermos aviões ou hospitais durante o dia e sistemas de informática disruptivos durante a noite; claro, a menos que, além de sermos uma empresa de software, sejamos o Batman da transformação digital tanto de dia quanto de noite.

Como mencionei anteriormente, a construção de software tem problemas essenciais, identificados pelo engenheiro de software e cientista da computação Fred Brooks em seu ensaio “No Silver Bullet” (1975), quando se começava a descobrir que fazer software era muito, mas muito, mais complexo do que fazer hardware. Essa complexidade fez (e faz) com que a indústria de software seja apaixonante, com incógnitas tão grandes e tão difíceis de resolver quanto a de construir a próxima grande inovação em saúde (algo que certamente esteja tirando o sono de Immelt). 

Façamos agora um paralelo com a demonstração por absurdo: digamos que toda empresa é uma empresa de software. Pensemos agora nos diferenciais estratégicos de uma companhia, aqueles que são o motor da alavanca competitiva conforme definiu Porter em Competitive strategy: Techniques for analyzing industries and competitors. O que aconteceria com as companhias em geral? Elas seriam diferentes ou “mais iguais” a partir disso? O que diferencia as empresas se todas são empresas de “software”? Como isso garante que nos mantenhamos inovadores? Se todos somos bons, ninguém é. Se todos somos iguais, como nos especializamos naqueles processos e estruturas que fazem o desenvolvimento?

Hoje em dia o motor do mundo é digital. Dizemos isso porque estamos vivendo a Quarta Revolução Industrial, cujo centro é a tecnologia, na qual o software é a pedra angular para transformar negócios tradicionais em inovadores, e também para manter organizações à tona no mercado; é um diferencial que nem todos conseguem desenvolver. Isso é algo importante a considerar, ainda mais se levarmos em conta o que se conhece como a Lei de Martec, que afirma que as tecnologias se transformam de forma exponencial enquanto as organizações o fazem de maneira logarítmica. Vale dizer que umas vão em naves espaciais e as outras apenas de escada (a menos, claro, que uma conte com o e-batmóvel). A cada dezoito meses temos uma microdisrupção nascida no Vale do Silício que molda as prioridades de quem somos atores da indústria nos próximos cinco anos. Levemos em conta que não estamos considerando, nesta análise, outros centros de inovação como os de Israel, Japão ou Alemanha. Ontem era Inteligência Artificial, hoje é Deep Learning e amanhã será, possivelmente, Self-Supervised Learning e tantas outras inovações mais. Injetar inovação é complexo, mas é a única forma de reduzir essa lacuna e evitar que concorrentes emergentes se tornem ameaças diretas.

Source: Crespo, B. (2017). "Digital Transformation: A Concept Born of Fear".Fonte: Crespo, B. (2017). “Digital Transformation: A Concept Born of Fear”.

Citando o Prêmio Nobel, Bernard Shaw:

“Se você tem uma maçã e eu tenho uma maçã, e trocamos as maçãs, então tanto você quanto eu continuaremos tendo uma maçã. Mas se você tem uma ideia e eu tenho uma ideia, e trocamos ideias, então ambos teremos duas ideias”.

Da mesma forma, a verdadeira inovação só pode ser cocriada entre as empresas e os agentes experientes externos, obtendo o melhor de cada um para gerar uma fórmula que se ajuste às necessidades de cada empresa e da situação pontual.

Em um mundo cada vez mais digital, processo que se acelerou com a última pandemia, é lógico que cada vez existam mais perspectivas sobre o desenvolvimento de software, já que de alguma forma, assim como a política e a economia, isso passou a ser um tema transversal. Ou seja, passou a ser algo que tem implicância direta em nosso dia a dia e que, de certo modo, nos “atravessa”. Mas uma coisa é evoluir, como empresa ou agente, e começar a se aproximar das novas tecnologias e adquirir as inovações que outros criaram, enquanto algo muito diferente é ser o criador dessas inovações: cada macaco no seu galho.

Confira o seguinte caso de sucesso de coinovação: “Automação: como alcançar uma redução significativa nos tempos de execução dos processos”.

Referências bibliográficas

Brooks Jr., F. P. (1975). “No Silver Bullet” en The Mythical Man-Month : Essays on Software Engineering. Pearson Education.

Crespo, B. (2017). “Digital Transformation: A Concept Born of Fear”. Insights: Knowledge-driven content. https://www.ie.edu/insights/articles/digital-transformation-concept-born-of-fear/ 

Poter, M. E. [1980] (2004). Competitive strategy: Techniques for analyzing industries and competitors. Free press.

Twentyman, J. (2015). “GE shows why every company needs to be a software company”. I – Global Intelligence for Digital Leaders. https://i-cio.com/innovation/internet-of-things/item/ge-shows-why-every-company-needs-to-be-software-company